Censura, Escravidão & Autoridade





Qual a relação construída entre esses três agentes no novo testamento?

Esses textos me incomodaram bastante na primeira vez que li. Hoje a cada releitura me regozijo e me orgulho de cada um deles.


Venho a um tempo pensando neles e planejando escrever algo sobre o assunto. Provavelmente esse artigo não será breve, mas espero que seja bastante esclarecedor.


Recebi uns primos do sul, vinham para um casamento de um outro primo. (A família é bem grande) e numa noite conversávamos sobre o pensamento político do cristão e os temas que devem ser discutidos e analisados à luz das Sagradas Escrituras. Lembre-se que minha visão política é apolítica, me adequando mais ao libertarianismo do que a qualquer outra linha à esquerda ou direita do espectro político que conhecemos.


Esses três textos me ajudaram no esclarecimento das minhas ideias, porque reafirmam o ateísmo político que custou a ser inserido em mim. Foi a partir desses textos, a visão de Paulo sobre as questões sensíveis desse mundo e o evangelho que me levaram a essa conclusão.


Sem mais delongas, vamos ao texto. Propositalmente começarei de trás para frente.


FILEMOM


A epístola à Filemom é assustadora para nós leitores do 21º século. Por quê? Paulo escreve para Filemom que tinha um escravo. Isso mesmo ESCRAVO. Esse escravo é capturado e preso na mesma prisão que estava Paulo. E Paulo levando o Evangelho a esse prisioneiro o ganha pra Cristo, seu nome é Onésimo. Paulo então escreve à Filemom relatando o ocorrido, se comprometendo a devolver algum tipo de prejuízo que Onésimo pudesse ter causado com a sua deserção. Até aí tudo bem, mas Paulo vai mais além. E aqui a coisa começa a ficar interessante.


Paulo intercede pela vida (Fm. 1:10) de Onésimo, promete devolver Onésimo (Fm. 1:8) certo de que Filemom o receberia sem fazê-lo mal algum. (Fm. 1:12) (Um breve parênteses aqui, nesse caso específico, segundo a lei, o senhor poderia até sacrificar o seu escravo em caso de deserção). Paulo então devolve Onésimo com um apelo, que não é respondido na mesma epístola obviamente, mas que saberemos o resultado lá na carta aos Colossenses (Cl 4:7-9)


Aqui Paulo não faz um discurso contra escravidão, Paulo não estava preocupado com isso por hora. Ele tinha a total compreensão de que essas questões sociais seriam resolvidas em uma sociedade majoritariamente cristã. Não cabia naquele momento uma carta repreensiva contra Filemom, mas uma carta amorosa. Tanto que Filemom liberta Onésimo porque concorda que mantê-lo escravo (no que tange a uma visão cristã de utilidade última para o homem) era infrutífero. Como diz Paulo:


“Ele, antes, te foi inútil; atualmente, porém, é útil, a ti e a mim.” Fm. 1:11

Paulo sabia que a visão política ou sua consciência social era irrelevante, pouco mudaria a vida das pessoas a sua volta. Mas com o Evangelho é diferente, aqui as pessoas agem genuinamente pelo amor de Cristo nelas. Isso sim tem a capacidade de mudar a condição humana.


Paulo compactuava com a escravidão? É evidente que não, mas ele sabia que não havia mensagem mais urgente do que o Evangelho.



1 Coríntios 14:34


Como as mulheres lidariam com o silêncio nos dias de hoje?


A 1ª epístola aos Coríntios é um manual do proceder cristão em diversas áreas. Mas há quem diga que Paulo foi muito duro com a mulheres nesses textos. Paulo era a favor da censura contra as mulheres? Novamente. É evidente que não! Mas ele propunha uma autocensura à elas para que o evangelho fossem disseminado naquela sociedade. Mais uma vez a preocupação de Paulo é com o Evangelho, ele sabia que em uma sociedade cristã as mulheres teriam a tal liberdade de ministrar a Palavra abertamente.


Alguns podem argumentar a necessidade disso, se não era mais sensato manter as mulheres falando abertamente dentro daquela sociedade para que as pessoas vissem que os cristãos eram diferentes. Mas aqui é que está a beleza do sacrifício, a intenção dos cristãos nunca precisou de autoafirmação, ou qualquer campanha desse tipo. A autoafirmação por si só pode causar conflitos e cizânia na sociedade, afastando os descrentes do Evangelho. Paulo conseguiu perceber isso.


No final do capítulo 14 Paulo está preocupado com a ordem no culto e com a decência porque essa é uma questão divina, mas também racional; de convívio comunitário. O nosso culto atual semelhantemente deve ocorrer dessa maneira, mas particularmente naquela sociedade, sobretudo entre os judeus presentes ali, presavam por isso. Paulo pagaria o preço do silêncio, se nesse silêncio a mensagem do Evangelho chegasse as pessoas. Paradoxal, mas Real. Uma vez o Evangelho inserido na sociedade, daí sim, as questões políticas sociais diversas seriam diluídas e resolvidas, não por uma canetada de um político, mas pelo Amor de Cristo Jesus no coração do pecador redimido.


Romano 13


Aqui reside um dos textos mais controversos da Bíblia. Puxado e esticado para caber na concepção de autoridade, política e estado de muitos cristãos.


Vale ressaltar que as cartas paulinas são dirigidas às igrejas locais que sofriam com algum tipo de problema interno, que poderiam matar aquelas células do Corpo em determinada região.

Em Roma, um dos lugares mais macabros para os cristãos, ocorriam discussões a respeito de autoridade, divindades e tributos, por isso a urgência da carta. Paulo é direto ao afirmar a sujeição às autoridades.


Alguns tentam relativizar essa visão de autoridade de Paulo, mas aqui SIM, ele está falando de políticos!


Mas por que dessa sujeição? Sabemos que os políticos, dirigentes do estado em geral, detêm o poder com armas. Paulo sabia disso, e preparava o cristão romano para não causar nenhum conflito com esses seres; essa classe de pessoas que poderia, de algum modo desacelerar a disseminação do Evangelho ali. Sabemos que eventualmente isso vai ocorrer com as perseguições nos quatro primeiros séculos da igreja. Mas veja, a igreja ainda é muito embrionária nessa época. O que Paulo diz seria algo do tipo assim: “Se para que aceitem o Evangelho vocês terão que se sujeitar, se sujeitem! Se para que aceitem o Evangelho vocês terão de pagar tributos, paguem! Mas não deixem te pregar o Evangelho. Preguem a QUALQUER custo.”


Paulo percebeu que o preço que foi pago na cruz foi alto demais semelhante a essas coisas terrenas.


Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito:
Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro.
Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Romanos 8:35-39


De semelhante modo a carta à Tito é bem categórica. Resume bem a ideia central desse artigo.



Lembra-lhes que se sujeitem aos que governam, às autoridades; sejam obedientes, estejam prontos para toda boa obra, não difamem a ninguém; nem sejam altercadores, mas cordatos, dando provas de toda cortesia, para com todos os homens. Pois nós também, outrora, éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador. Tt. 3:1-2


Não satisfeito ele completa:


Evita discussões insensatas, genealogias, contendas e debates sobre a lei; porque não têm utilidade e são fúteis. Tt. 1:9

Para Paulo qualquer coisa fora do Evangelho era fútil, até questões sobre censura e escravidão. Ele sabia que todas essas questões virariam pó uma vez que o Evangelho entrasse no coração das pessoas.


Onésimo foi liberto no dia que foi preso. As mulheres de Coríntios se alegraram ao ver as pessoas serem convertidas com a pregação dos homens. Em Roma a igreja se sujeitou, ao ponto de serem sacrificados na mão do estado, e por isso cresceu a tal ponto de sujeitá-lo ao cristianismo.


Nesses textos não pretendo minimizar questões tão sérias e tão urgentes. Inúmeras pessoas têm resoluções diversas para essas questões, mas apenas uma resposta é viável. Paulo aprendeu isso muito cedo, está na hora do cristão se tornar um verdadeiro ateu político. Não é a política que vai mudar a condição humana, não é uma consciência social “elevada”. O que vai mudar o homem é o Evangelho. O Evangelho somente!


Mas esse site onde este artigo está inserido tem uma visão política muito peculiar. Onde o estado é um parasita matando o seu hospedeiro aos poucos. O Dr. Norman Horn do LCI Libertarian Christian Institute diz:


O libertarianismo é o pensamento político que mais se adequa ao Cristianismo

Veja: ele não diz que o Cristianismo se adequa a uma visão política é a visão política que se adequa ao Cristianismo. Aqui falo como um cristão que percebeu o libertarianismo como ferramenta para a disseminação do Evangelho. Foi olhando o libertarianismo com uma visão cristã que percebi nele uma ferramenta poderosa na mão daqueles que querem a partir da liberdade pregar o Evangelho, sabendo, entretanto, que se a liberdade total e ilimitada vier, ainda assim haverá sofrimento, doença, avareza e morte. A vida física do cotidiano pode melhorar e vai melhorar, mas só com o Evangelho é que a condição individual do ser será plena.


Assim como Paulo viu a autocensura e a sujeição uma ferramenta naquele tempo, será que a luta pela liberdade é uma ferramenta atual? Claro, puxando a corda contra os ditames estatais até onde dá.


Esse texto NÃO é uma carta de conformação. Se conseguimos hoje pregar o Evangelho e ainda defender causas corretas à luz das Escrituras; seguindo a ideia central de Paulo aos Romanos no capítulo 12, foi porque cristãos do primeiro século souberam ser luz onde estiveram e lutaram sabiamente o combate proposto a eles.


E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

E ainda:


Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros. No zelo, não sejais remissos; sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor; regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes; compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade; abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis. Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram.



Fecho com a carta que Paulo escreveu aos Gálatas:


Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Gl 2.19:20

Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão. Gl 5:1
Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos. Gl 5:13:15


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Filipe Dias é o criador do ICPL, um cristão orgulhoso do Evangelho e um pecador envergonhado mas, recentemente, um ex-gradualista arrependido.

Mora no Rio de Janeiro, sua Nação, com sua linda filha e digníssima e não menos linda esposa.

Amante de Café, Livros, o Club de Regatas Vasco da Gama e Lapiseiras, nessa ordem.

Cristão Reformado Libertário Tomista-Weberiano e apesar de eventuais contradições, em processo de perfeição. É, isso mesmo, Perfeição!

Geógrafo de Formação, Economista por Ambição, Cientista Político por Atração.

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