Dando a Outra Face

Atualizado: 22 de Jan de 2019


“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado.”


- Mateus 5.38-42


Contexto, Estrutura e Ponto Fundamental do Texto


O Evangelho de Mateus foi provavelmente escrito nas últimas décadas do século I d.C., após a queda de Jerusalém. O tradicional autor Mateus, também chamado de Levi, foi um cobrador de impostos judeu chamado para ser um discípulo. Suas “mudanças” de uma lucrativa carreira como cobrador de impostos para um dos doze indica a força de seu compromisso com Jesus. Embora os primeiros manuscritos de Mateus sejam anônimos, sua autoria não costuma ser questionada. Curiosamente, algumas fontes, como Papias, indicam que Mateus escreveu esse evangelho em hebraico primeiro, em vez de grego. Isso pode apoiar a alegação de que o público original de Mateus era os judeus após a queda de Jerusalém, que se perguntavam o que seria deles após uma derrota tão chocante. No entanto, a maioria das citações do Antigo Testamento está mais próxima das versões da Septuaginta do que das versões hebraicas, e assim a questão da língua mateana original permanece sem solução. Muitos estudiosos argumentam que Mateus parece estar se baseando em fontes além de sua própria experiência, e quer essas sejam entrevistas pessoais ou a hipotética fonte Q, a autenticidade geral de seus escritos parece ser válida.


A perícope exposta está localizada dentro da seção de Mateus, muitas vezes intitulada "O Sermão do Monte" (que inclui os capítulos 5 a 7). Jesus já havia pregado que “o reino dos céus está próximo” (4:17), e o sermão explica o que às vezes é chamado de “as regras do reino”. Essas regras são diferentes de quaisquer leis ou códigos que já existiram, pois exigem uma mudança radical de comportamento que decorre de uma mudança de coração.


Após um exame mais aprofundado, pode-se identificar subseções dentro do Sermão do Monte. Mateus 5.38-42 é parte de uma subseção (5.21-48) chamada “Seis Antíteses”. Cada antítese assume a mesma forma. Primeiro, Jesus cita uma injunção da Torá. Segundo, ele reinterpreta o comando da Torá de uma maneira nova e radical. Terceiro, ele fornece ilustrações específicas para seguir o comando radical. Alguns estudiosos acham que o objetivo de Mateus é fornecer à igreja um novo código de santidade (portanto, "as regras do reino") que abrange tanto o comportamento externo quanto à disposição interior. Em outras palavras, a obediência de toda a pessoa é necessária, e o novo modo de vida é completamente antitético ao antigo modo de vida.


Os versículos 38-42 são a quinta antítese e consideram uma maneira diferente de encarar a retaliação contra o mal. A injunção da Torá é a passagem bem conhecida de Êxodo 21.24, Levítico 24.20 e Deuteronômio 19.21, “Olho por olho e dente por dente”. Na primeira antítese, Jesus já falou sobre uma nova proibição da ira contra os irmãos, e assim essa antítese poderia estar se baseando na primeira. Fundamentalmente, porém, a mensagem de Mateus 5.38-42 é que quando uma pessoa errar com você, não se vire imediatamente e revide. Em essência, Jesus está defendendo que todos façam um compromisso pessoal com a não-violência. Este é certamente um comando radical, especialmente considerando que a maioria dos humanos racionais concorda que a autodefesa é um direito básico dos seres humanos. Se isso é uma proibição contra toda a autodefesa ou não, precisa ser avaliado. Além disso, Jesus conecta a benevolência com a não-retaliação também, e talvez isso forneça uma pista para o significado de ser uma pessoa não-violenta.


Exegese Detalhada e Interpretação de Mateus 5.38-42


O versículo 38 é bastante autoexplicativo. Jesus cita uma passagem familiar do Antigo Testamento sobre a regra de retaliação por danos infligidos. No entanto, deve-se notar um fato específico que poderá ajudar na interpretação. Esta regra de retaliação é frequentemente denotada como lex talionis, a antiga lei da retribuição que remonta ao Código de Hamurabi. O ponto importante não é que a lex talionis permite a retaliação, mas que restringe as partes ofendidas de promover vingança ilimitada, para proibir a posição penal “maximalista” de ser a regra. Também serve a função de prevenir mais crimes. A primeira pista para interpretar essa passagem é que Jesus inicialmente começa com um princípio legal e, portanto, um ponto de partida exegético de uma aplicação provavelmente deveria ser examinar o que Jesus diz com uma inclinação legal. Deve-se ter em mente, porém, que a intenção de Jesus é radicalizar os princípios antigos, por isso também deve-se estar preparado para surpresas. João Calvino disse que não devemos olhar para Cristo como um “novo legislador”, mas sim como um “fiel expositor” da lei de Deus. Isso se encaixa dentro de um modelo geral de que Jesus está proclamando as implicações completas e radicais da lei de Deus.


O versículo 39a contém a antítese, “Mas eu lhes digo…”, e dá o princípio radicalizado contrastando o versículo 38: “Não resistam ao perverso” (NVI), ou na paráfrase deste autor: “Não pague na mesma moeda a uma pessoa má".  O problema em interpretar este versículo, pelo menos para a NVI, é o tipo e a extensão da resistência que é proibida. Mesmo ele, quando encontrou a casa de seu pai sendo tomado pelos mercadores, amarrou um chicote de cordas e os expulsou (Mt 21.12; Jo 2.15). Os discípulos em numerosas ocasiões escolheram obedecer a Deus em vez de aos homens maus (At 4.19). Em duas ocasiões somos instruídos a resistir especificamente ao diabo (Tg 4.7; 1Pe 5.9). No entanto, como a exegese seguinte demonstra, a antítese deve ser entendida como uma renúncia ao uso da força contra os outros, como renunciar à busca da vingança e à troca do mal pelo mal. Assim, a paráfrase "pagar na mesma moeda" é usada no lugar de "resistir". 1 Pedro 3.9 explica vividamente por que agimos assim: “Não retribuam mal com mal, nem insulto com insulto; ao contrário, bendigam; pois para isso vocês foram chamados, para receberem bênção por herança.”


Depois de afirmar a antítese, Jesus muda para falar na segunda pessoa e dá quatro ditos admonitórios para solidificar seu ponto. O versículo 39b é a declaração clássica de Jesus “ofereça-lhe também a outra [face]”. O "tapa" mencionado aqui foi principalmente uma expressão de ódio e insulto, ao invés de um ataque físico com a intenção de privar um indivíduo de vida ou saúde. A dor causada é importante, mas secundária ao insulto. A adição da face direita poderia significar um insulto especialmente grosseiro, já que isso exigiria um tapa com a parte de trás da mão ou com a mão esquerda. O insulto insinuava que alguém era inferior, talvez escravo, criança ou, naquela época, mulher. Os tratados do Baba Qamma (8.6) diziam que um tapa com a parte de trás da mão exigia dupla penitência. 1 Esdras 4.30 (dos Apócrifos) indica que um tapa com a mão esquerda era considerado um insulto especial. A situação aqui representa alguma situação violenta que se possa encontrar na vida, alguma situação insultuosa ou ambas? Uma vez que os tapas eram, aparentemente, muito dados, a resposta mais provável é a situação insultuosa ou talvez ambas. Se considerado que Jesus está falando sobre isso em um sentido legal, o que mais poderia ser colhido? Estapear alguém naquela época poderia resultar em uma troca que seria levada a um tribunal civil; isso era inteiramente possível, dada a lei rabínica, como mencionado acima. Jesus está dizendo que não se deve deixar a violência continuar aumentando. Bater de volta, como N.T. Wright diz: "mantém o mal em circulação" (51). Em vez disso, receba o insulto sem insultar de volta, ofereça a face esquerda e deixe-o aproximar-se ao mesmo nível que você. Oferecer a outra face implica que o agressor pode atacar novamente, se quiser, mas o fará como igual e não como superior.


Em seguida, encontra-se no verso 40 a situação do processo do devedor. A túnica era frequentemente usada como penhor pelos pobres contra um processo. Dar também a capa indica um aumento significativo porque a capa era muito mais valiosa. Isso poderia ser uma oposição indireta à lei do Antigo Testamento dos empréstimos, porque se um pobre homem desse uma capa como penhor, teria de ser devolvido à noite para que ele possa dormir nela (Êxodo 22:26; Dt 24,12). O que está acontecendo aqui, porém, é que a pessoa mais poderosa está basicamente se aproveitando de alguém pobre no processo. Jesus está dizendo que você pode não ganhar o processo, mas pode mostrar as ações do agressor pelo que elas são. Como a maioria das pessoas usava apenas estas duas vestes, dando-lhe também a capa, envergonha-o com a sua nudez empobrecida. E isso era, na verdade, o que os ricos e poderosos estavam fazendo na época, envergonhando os que tinham pouco, atacando seus irmãos hebreus e pegando o que não lhes pertencia.


Os romanos frequentemente tiranizaram Israel, e o verso 41 ilustra a injustiça comum dos soldados forçando os civis a transportar suas cargas por distâncias significativas. Embora isso às vezes tenha sido exigido por cidadãos particulares, esse é provavelmente um ponto contra a ocupação romana. N.T. Wright explica este verso cuidadosamente:


“Soldados romanos tinham o direito de forçar civis a transportar seus equipamentos por uma milha. Mas a lei era bastante rigorosa; proibiu-os de fazer alguém ir mais do que isso. Vire o jogo contra eles, aconselha Jesus. Não se preocupe, nem se irrite e nem planeje vingança. Copie seu generoso Deus! Percorra uma segunda milha e surpreenda o soldado (e talvez o deixe alerta - e se seu comandante descobrir?) com a notícia de que há uma maneira diferente de ser humano, uma maneira que não planeja vingança, que não se une ao movimento de resistência armada, mas que conquista o tipo de vitória de Deus sobre a violência e a injustiça.” (52)


Wright faz um excelente ponto, que na verdade ressoa através dos versos 39b-41, onde Jesus está mostrando aos seus seguidores uma nova maneira de ser humano que rejeita o uso convencional da força como regra. Em vez disso, através de uma forma de “resistência passiva”, ações violentas são reveladas pelo que são, sem aumentar a violência. Este é o tipo de vitória de Deus.


O versículo 42 aborda a benevolência, e deve-se perguntar imediatamente por que Jesus incluiu este provérbio em particular nesta exposição. Parece quase como uma declaração de enquadramento, não abordando exatamente a mesma coisa de antes, mas encerrando tudo em um único pacote. O comando é mais geral, um comentário sobre a atitude do cristão mais do que um comando de falir a si mesmo na primeira oportunidade. A exortação de Wright de "Copie seu generoso Deus!" vem à mente como a resposta do cristão às palavras de Jesus. Deus mostrou misericórdia compassiva e benevolência a todas as pessoas, e seu povo pode fazer o mesmo.


Tomando os versos 39b-42 juntos, pode-se perguntar, em geral, o que Jesus pretendia com essas exigências? Esses mandamentos devem ser tomados literalmente ou visam principalmente um direcionamento de ação ou atitude? Até certo ponto, é preciso lembrar que o encorajamento simplesmente para suportar o erro está presente em muitos escritos filosóficos daquela época, incluindo aqueles fora do judaísmo dos dias de Jesus. Mas em Mateus 5.38-42 nenhuma motivação é dada, como acontece em Provérbios 25.21-22. Nenhum elemento de resignação ao destino está presente. Nenhum cálculo otimista de que o futuro será melhor pode ser encontrado. Nenhum sinal de que isso é prudente e razoável é elucidado. Com efeito, não se está inicialmente convencido, ou pelo menos é bastante incerto sobre como isso deve funcionar na prática.


No entanto, esta passagem deve ser lida dentro do contexto de todo o Sermão do Monte, e nesse contexto Jesus está dizendo que é assim que o reino de Deus está rompendo com o mundo. “Para Jesus, a chegada do reino de Deus manifesta-se como ilimitado amor de Deus pelo povo que, por sua vez, possibilita o amor aos seres humanos entre si e até pelos seus inimigos” (Luz 327). Os versos 38-42 são um protesto simbólico contra o uso habitual da força no mundo. O protesto gentil exige um comportamento ativo, estabelecendo um contraste provocativo entre o modo como as coisas são e o modo como as coisas deveriam ser. Renunciar ao uso da força é uma expressão de amor ao próximo. Mas isso não é amor ao próximo no sentido estrito de puramente entre duas pessoas, antes promove uma declaração ampla e fascinante contra os mecanismos coercitivos que governam o mundo. O caminho de Deus envolve romper esses mecanismos de comportamento e proporciona liberdade verdadeira.


História da Interpretação


A história da interpretação dessa passagem é extensa e as próprias interpretações variam muito. Sua história é repleta de confusões, com filosofia pobre e teologia pobre, com pessoas desconsiderando a história e pessoas desconsiderando a razão. John MacArthur escreve: “Provavelmente nenhuma parte do Sermão do Monte foi tão mal interpretada e tão mal aplicada como 5.38-42. Tem sido interpretado como significando que os cristãos devem ser capachos hipócritas. Ela tem sido usada para promover o pacifismo, objeção de consciência ao serviço militar, ilegalidade, anarquia e uma série de outras posições que não apoia” (329). MacArthur provavelmente está correto, mas, por outro lado, sua própria interpretação tem muitos problemas. É claro que algumas interpretações históricas se destacam acima de outras como sendo consistentes com a mensagem de Jesus e com a razão evidente. A seção seguinte explica brevemente um pouco da história da interpretação de Mateus 5.38-42, tanto a boa como a má.


Duas escolas de pensamento dominam a história da interpretação: os pontos de vista rigoristas e atenuantes. O rigorista toma o texto literalmente, ou pelo menos tão literalmente quanto julgar necessário, e, portanto, a extensão do rigor varia significativamente. Intérpretes atenuantes tentam entender por detrás do texto para que eles possam descobrir exatamente ao que Jesus está se referindo. Para este autor, nenhum método é inerentemente defeituoso. De fato, pode-se esperar uma convergência de tipos em algum ponto entre os dois extremos com a aplicação do bom senso. Mas, como diz Luz, “um simples retorno a Jesus é impossível por razões teológicas básicas; é necessário, com base na natureza exemplar do texto, levar em consideração a própria situação” (335). A verdade desta afirmação é óbvia, dada a história desta passagem.


Os primeiros comentaristas se concentraram em como Jesus nos diz para lidar com insultos e perseguições. Suas palavras fazem sentido considerando quão delicada sua situação teria sido se uma séria resistência física tivesse ocorrido. Eles entenderam que, fazendo o bem aos inimigos, eles "amontoam brasas vivas" sobre eles (Provérbios 25.22) e não lhes davam motivo para persegui-los, a não ser por proclamar o nome de Jesus Cristo. A explicação de Orígenes de "dar a outra face" garante uma citação completa:


“As palavras de Jesus a respeito de dar a outra face refere-se a mais do que simplesmente longanimidade. Pois é contra a natureza ser tão arrogante a ponto de atingir a outra pessoa. Portanto, aquele que está ‘pronto para dar uma resposta’ a toda pessoa mal-intencionada ‘concernente à fé que está nele’ não oferecerá resistência. O significado espiritual é este: para aquele que o atinge na face direita - isto é, contra as doutrinas racionais - o crente também oferecerá os princípios éticos. Isso irá escandalizar aqueles que não entendem os raciocínios da fé. Eles cessarão de suas acusações, pois ficarão envergonhados e continuarão progredindo nas coisas divinas.” (Simonetti 117)


Tudo mudou com a chamada Inversão Constantiniana, quando o imperador Constantino legalizou o cristianismo e transformou-o na religião do Estado. Os cristãos não eram mais considerados apenas objetos de perseguição, mas agora podiam até alcançar o poder mundano através do governo civil. Surpreendentemente, os cristãos no poder esqueceram que a renúncia à força ainda se aplicava a eles mesmos. E assim, o Estado-Igreja tomou sobre si um poder inimaginável e foi corrompido pelo mundo. Pode-se ver prontamente a falha fundamental neste modo de pensar. Por que eles deveriam, apesar de administrarem as autoridades governamentais, receber uma licença especial de moralidade? Ulrich Luz, de certa forma, reconhece essa inconsistência, mas não compreende bem as implicações de tais ideias:


“As decisões nas grandes igrejas mostram quão grande era o perigo de que, através da participação responsável no poder secular, a proclamação do reino de Deus fosse obscurecida e essas exigências de Jesus, que pertencem a ela, fossem praticamente invalidadas… Essas igrejas não são capazes de tornar real o evangelho da renúncia à lei e à força na forma da própria igreja, desde que sejam puras Volkskirchen (igrejas nacionais).” (336)


Os reformadores tentaram corrigir algumas dessas noções, mas ainda não conseguiram oferecer uma aplicação clara a todos os seres humanos em todos os lugares. Em uma série de sermões, Martinho Lutero apresentou sua conhecida doutrina dos dois reinos, o secular e o espiritual (Stanton 291). O cristão vive em ambos e deve agir apropriadamente e de acordo com ambos. No reino espiritual, em outras palavras, a igreja, o cristão deve obedecer a todos os mandamentos do Sermão do Monte. No entanto, no reino secular, a lei natural ou o "senso comum" devem prevalecer. Pode-se perguntar se isso realmente atinge o alvo, já que, embora se trate de uma linha divisória, certos indivíduos ainda recebem privilégios morais especiais para exigir força contra os outros. É como se eles entendessem que a passagem tem aplicação limitada, mas específica, não podendo determinar até que ponto ela se estende. (Incidentalmente, a posição de João Calvino é fundamentalmente semelhante a Lutero).


Os comentaristas modernos ainda se preocupam com muitos desses mesmos assuntos, mas alguns parecem estar pairando em direção a uma interpretação que não permite que alguns exijam coação contra os outros. Ulrich Luz é um exemplo interessante de alguém que vê os problemas, mas não entende bem como resolvê-los. Ele apontou as inconsistências dentro da história da igreja e reconheceu a necessidade de mais estudo e interpretação, mas dá pouca indicação de uma solução:


“Nesta situação já não é suficiente, na minha opinião, orientar-se pela tradição normativa da interpretação do Sermão do Monte nas principais igrejas, mas é necessário, em conversa com outras tradições de interpretação e particularmente com os textos bíblicos, elaborar uma nova interpretação que corresponda à nossa própria situação de hoje”.


Embora ele saiba que devamos repensar toda a situação, sua solução implícita de compromisso, na opinião deste autor, não dá ao texto (ou a Jesus) a devida justiça. Na verdade, seu próprio trabalho é a chave, e se ele tivesse que manter consistentemente o que viu no texto, provavelmente estaria no caminho certo.


John MacArthur, um teólogo contemporâneo enigmático e popular, não faz muito para promover uma visão radical desses versos e, em vez disso, recai sobre um ponto de vista reformado mais tradicional. Ele rejeita a noção de que a moralidade é universal e usa Romanos 13 para eximir os agentes governamentais da responsabilidade. Enquanto alguns acham isso convincente, não podemos deixar de nos perguntar por que Deus criaria um mundo com tal relativismo moral embutido no próprio tecido da interação humana. Se há uma diferença entre um cidadão privado e um funcionário público, isso não é de conhecimento de Jesus, portanto, não devemos ser influenciados em nossa dedicação à renúncia à coerção. 


Por outro lado, a interpretação de N. T. Wright de que Mateus 5.38-42 defende uma forma de resistência passiva a toda coerção parece muito mais razoável e consistente com a mensagem geral de Jesus. Ele conclui seus comentários com um princípio fundamental: “As pessoas da luz nunca estão mais em risco do que quando são atraídas a lutar contra a escuridão com mais trevas” (119).


Síntese e Aplicação


O ponto crucial da mensagem de Jesus em Mateus 5.38-42 é que a responsabilidade do cristão é renunciar ao uso da força como meio de alcançar seus objetivos. Seja o avanço do evangelho ou a obtenção de riqueza física, a coerção não é apropriada para o povo de Deus. Isso deve envolver a renúncia à institucionalização da força na sociedade também. Nenhum homem merece privilégio moral especial devido à sua posição. A renúncia da força é um sinal contrastante do reino de Deus e é uma expressão de amor ao próximo. A justaposição da coerção proibidora e do amor sincero comandante serve para nos lembrar que tudo isso se origina na natureza radical do reino de Deus.


Além disso, nos é dado um modelo de como responder quando certas formas de coerção são trazidas contra nós. Jesus está propondo uma estratégia para roubar os cruéis, os violentos e os opressores de seu poder. Em suma:

  • Se você estiver disposto a me tratar como subumano, não responderei da mesma maneira. Mas vou deixar claro que não somos duas pessoas desiguais, está bem?

  • Se você estiver disposto a me processar injustamente, não responderei da mesma maneira. Você está disposto a perpetuar a injustiça e me privar do meu bem-estar?

  • Se você está disposto a usar a força para me obrigar a fazer o que quer e me humilhar, então vou acumular brasas em sua cabeça, indo de boa vontade.


E tudo isso é possível porque Jesus fez assim, sua vitória na cruz nos mostra essa nova maneira de ser humano. “Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça” (1 Pedro 2.23).


Notas de tradução do grego


Não existem variantes textuais significativas para este texto, mas há uma frase que, dependendo de como é traduzida, tem implicações teológicas potencialmente importantes: a frase “ με αντιστεναι το πονερο” no versículo 39. A primeira parte, “αντιστεναι”, é traduzida como “resistir” na Nova Versão Internacional. No entanto, é traduzido em outros lugares como "opor-se" ou "ficar contra". O problema não é a tradução precisa tanto quanto a conotação e a semântica. Usar “não resista” pode até implicar que nenhuma forma de resistência é legítima, nem mesmo uma forma de resistência passiva. De fato, fazer o bem àqueles que fazem mal a nós é, por natureza, uma forma de resistência passiva! Assim, talvez uma representação mais fiel que mantenha o significado da passagem possa ser encontrada. Na maioria dos casos em que uma forma da raiz “αντηιστεμι” é usada, a implicação é que as pessoas estão envolvidas em conflito sobre alguma coisa. Portanto, a tradução mais apropriada no contexto deve refletir a recusa em participar de maneira vingativa, portanto, “pagar na mesma moeda” parece ser uma representação adequada. Em outras palavras, não se deve devolver o mal pelo mal. Mais foi dito sobre as implicações para a interpretação na seção Exegese Detalhada deste artigo.


A segunda parte, “το πονερο”, pode ser traduzida como “mal” ou “maligno”, e claramente a escolha da tradução afetaria o significado para o leitor moderno. A passagem paralela no evangelho de Lucas (6: 29-31) não ajuda, já que ele omite esse comando específico de sua narrativa. A palavra πονηρω (ou uma forma intimamente relacionada) não é frequentemente usada no Novo Testamento, mas no versículo 45 ela é usada novamente e a referência é clara - pessoas más, não mal no sentido abstrato. Outro uso particularmente significativo é em Mateus 6.13, a Oração do Senhor. Frequentemente, os tradutores traduzem o verso como “livra-nos do maligno”. Se alguém deseja uma tradução consistente através do Sermão do Monte em sua totalidade, deve-se levar as duas instâncias em consideração antes de chegar a uma interpretação.


Referências


  1. M. Green, The Message of Matthew (Downer’s Grove, IL: InterVarsity Press, 2000).

  2. D. R. A. Hare, Matthew (Louisville, KY: John Knox Press, 1993).

  3. S. Hauerwas, Matthew (Grand Rapids, MI: Brazos Press, 2006).

  4. T. G. Long, Matthew (Louisville, KY: John Knox Press, 1997).

  5. U. Luz, Matthew 1-7: A Continental Commentary (Minneapolis, MN: Fortress Press, 1992).

  6. U. Luz, Matthew 8-20: A Commentary (Minneapolis, MN: Augsberg Fortress, 2001).

  7. J. F. MacArthur, Matthew 1-7 (Chicago, IL: Moody Press, 1985).

  8. R. H. Mounce, Matthew (Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 1991).

  9. M. Simonetti, Ancient Christian Commentary on Scripture: Matthew 1-13 (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2001).

  10. G. N. Stanton, A Gospel for a New People: Studies in Matthew (Louisville, KY: Westminster/John Knox Press, 1993).

  11. B. Witherington III, Matthew (Macon, GA: Smyth & Helwys, 2006).

  12. N. T. Wright, Matthew for Everyone, Part 1: Chapters 1-15 (Cambridge: University Press, 2002).




Sobre o autor:


Dr. Norman Horn

fundou o Libertarian Christian Institute, e atualmente atua como seu Presidente. Ele é PhD em Engenharia Química pela Universidade do Texas em Austin e Mestre em Artes em Estudos Teológicos pela Austin Graduate School of Theology. Ele trabalha em tempo integral como engenheiro químico e pesquisador no setor de saúde.

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