Existe uma visão cristã de economia?


Tive o prazer de participar pela primeira vez do FEEcon este mês. Eu conheci várias pessoas interessantes, desde colegas participantes até alguns dos palestrantes, incluindo o presidente, Lawrence W. Reed. Ele falou sobre a influência de sua fé cristã em seu trabalho na FEE em seu discurso de abertura, que apresentou um novo e-book publicado pela FEE, Are We Good Enough for Liberty? [Somos Bons o Suficiente Para a Liberdade?]


Enquanto estava lá, observei algumas conversas entre Doug Stuart, do LCI, e outros participantes, onde Doug foi questionado se era possível um cristão ser um libertário. As respostas foram todas positivas,[1] mas foram principalmente que o cristianismo e o libertarianismo não se contradizem. Ainda assim, para muitos de nós, não é que o libertarianismo seja apenas uma das muitas opções políticas, mas que o libertarianismo é uma filosofia que emerge da teologia que nós aderimos. O libertarianismo tem uma firme base teórica na teologia cristã.


Mas o que isso significa? Significa que "fazemos" o libertarianismo de um modo distintamente cristão? Isso significa que a economia é diferente para nós do que para os não cristãos? Simplesmente fornece uma perspectiva diferente sobre a filosofia? Gary North parece pensar que a teoria econômica austríaca está perdendo uma contribuição cristã para a economia e, para minha próxima série de artigos, eu estarei avaliando o livro de North, Christian Economics in One Lesson [Economia Cristã Numa Única Lição].


Quem é Gary North?


Gary North é uma figura interessante entre os pensadores libertários. Ele se considera um libertário radical em termos de sua oposição à intervenção do governo, mas ele exalta os valores culturais conservadores tradicionais, a ponto de apoiar a pena capital para coisas como homossexualidade, adultério, blasfêmia e coisas do gênero. [2]


A estranha tomada do Calvinismo de North como apoio a uma reconstrução teocrática do estado de maneira diferente de uma sociedade anarcocapitalista certamente traz a questão de se os cristãos podem ser legitimamente libertários. [3] Mas vamos deixar de lado sua política no momento.


North claramente é um defensor da teoria econômica austríaca. Tendo sido empregado pela FEE na década de 1970 e trabalhando ao lado do próprio Henry Hazlitt, North tornou-se consciente da importância da teoria econômica austríaca e da árdua tarefa de ensinar as pessoas comuns sobre os perigos das ideias econômicas ruins.


Ele acredita que estamos perdendo uma oportunidade de alcançar as pessoas por não apelar para as implicações éticas das ideias econômicas. A frase “imposto é roubo”, por exemplo, é mais do que uma polêmica cativante; é uma acusação pesada de que a própria existência do estado (no mercado, pelo menos) é antiética. O objetivo do North é alcançar o cristão comum que não tem interesse ou conhecimento em negócios e economia. Ao atingir essa audiência, North espera que os não-economistas possam avaliar mais facilmente as políticas propostas e não se deixar enganar em acreditar em ideias econômicas ruins.


O que há de tão bom em Henry Hazlitt?


O que tornou o livro de Hazlitt tão excelente, é que ele foi capaz de usar uma analogia simples como uma lição objetiva e, em seguida, aplicou várias maneiras pelas quais o governo emprega o raciocínio falacioso na analogia. Essa analogia é a história da Janela Quebrada, escrita pela primeira vez por Frederic Bastiat, em seu ensaio intitulado O que se vê e o que não se vê. Você pode ter ouvido essa analogia antes, mas resumirei como Bastiat apresentou. 


A analogia de Bastiat da Janela Quebrada


Bastiat abre essa analogia com o filho de um comerciante. O menino acaba quebrando a janela do pai por descuido. O comerciante está chateado, mas o povo da cidade o consola, apontando que a reparação da janela proporcionará uma renda para o vidraceiro. Mais do que isso é que, se não fosse por atos de destruição, o vidraceiro não teria trabalho. Assim, o comerciante paga um vidraceiro para consertar sua janela, o vidraceiro recebe sua nova renda, abençoa o menino e tem dinheiro para comprar outra coisa. Este é o efeito visto da destruição da janela.


Bastiat: Destruição não estimula a economia


Bastiat garante que esse evento faz circular o dinheiro, mas ele se opõe a que esse evento seja um ato de estímulo econômico, como está implícito no consolo: que se não fosse pela destruição, o vidraceiro não teria dinheiro para comprar comida, portanto, a destruição estimula a economia.


Se destruição estimula a economia, então seria melhor destruir o prédio inteiro do comerciante. Então, não apenas o vidraceiro seria chamado, mas o arquiteto, o pedreiro, o eletricista, ... você entendeu. Não é difícil ver para onde vai essa linha de raciocínio ... o modo último de destruição, a guerra, é um bem supremo para a economia. E, de fato, muitos economistas propõe que eventos terrivelmente destrutivos, como os ataques de 11 de setembro, são realmente uma bênção econômica disfarçada.


Mas Bastiat vê uma falha inerente; porque se a janela não tivesse sido quebrada, o comerciante poderia ter comprado um novo par de sapatos. E o vidraceiro não estaria necessariamente sem trabalho. Certamente, o vidraceiro teria um trabalho em virtude de novos lares e empresas, que contribuem para a economia, e consertando as janelas que tem uma grande utilidade.


Gastar dinheiro devido à destruição resulta no valor perdido da janela.


“A sociedade perde o valor das coisas que são inutilmente destruídas;” e devemos concordar com uma máxima que fará o cabelo dos protecionistas ficar em pé - Quebrar, estragar, desperdiçar, não é incentivar o trabalho nacional; ou, simplesmente, "destruição não é lucro". -Frederic Bastiat

Hazlitt: Intervenção do governo é a destruição da janela


O público de Hazlitt eram pessoas que já entendiam os efeitos prejudiciais da intervenção do governo no mercado. Controles de preços remanescentes da Segunda Guerra Mundial ainda estavam em vigor, o que resultou em escassez, racionamento e um próspero mercado negro. Como é típico, as soluções oferecidas favoreceram mais, não menos, a intervenção do governo.


Onde Bastiat usou um menino sem sorte, Hazlitt usa o governo como a força destrutiva da janela proverbial. A lição final para seu público economicamente hábil era que o governo precisava se retirar da economia porque suas ações estavam sufocando o progresso econômico, não ajudando.


Críticas de North sobre Hazlitt e Bastiat


Para North, o livro de Hazlitt está desatualizado e fala para um público restrito. Hoje, não sabemos como é viver em condições pós Segunda Guerra Mundial, e a maioria das pessoas não é alfabetizada em negócios e economia. E, no entanto, são pessoas comuns que estão sendo solicitadas a acreditar e endossar (por meio de votação) várias políticas econômicas. Então, como North acredita que podemos alcançar as pessoas hoje?


North quer apelar para a consciência cristã para persuadir as pessoas sobre as implicações éticas do roubo através da analogia da janela quebrada. Ele acredita que a consciência das pessoas comuns será sacudida pela compreensão de que apoiar certas políticas econômicas os tornam “cúmplices” no crime de roubo.


O que resta ser visto


Neste momento, estou oferecendo apenas uma introdução a North e sua motivação para adaptar o livro de Hazlitt. Certamente, se o libertarianismo é baseado na teologia cristã, e a economia austríaca é um aspecto do pensamento libertário, então North deve estar presente. Mas o que resta a ser visto é se North faz a conexão de forma suficiente e eficaz.


A economia tem um aspecto ético? Isso é persuasivo para as pessoas comuns? O argumento econômico é melhor entre cristãos ou é melhor declarado em outro lugar? Quais são as implicações do mandamento: Não furtarás? Estas são algumas das questões que explorarei em meus próximos artigos.


Notas de rodapé


[1] Isso foi interessante porque há muitos cristãos não-libertários e não-cristãos libertários que argumentam que o libertarianismo e o cristianismo são incompatíveis.


[2] Ele foi uma figura de destaque no Reconstrucionismo Teonômico nos anos 90, que ainda é defendido hoje por um pequeno grupo de organizações como a Chalcedon Foundation e a American Vision. Ele foi aluno de um filósofo calvinista chamado RJ Rushdoony e mais tarde se casou com a filha de Rushdoony.


[3] Para ser clara, eu não endosso o Reconstrucionismo Teonômico e o acho incompatível, não apenas com o libertarianismo, mas também com o neocalvinismo como uma interpretação equivocada do pacto dos princípios do trabalho na aliança mosaica.






Sobre a Autora:

Kerry Baldwin

é uma pesquisadora independente e escritora com um Bacharelado em Filosofia pela Universidade Estadual do Arizona. Sua escrita se concentra na filosofia libertária e na teologia reformada e dirigida a instruir leigos; desafiando os leitores a repensar os paradigmas vigentes na política, teologia e cultura. Ela é uma cristã confessionalmente reformada e membro da Igreja Presbiteriana Ortodoxa, cujo fundador mais influente foi J. Gresham Machen, um franco libertário e defensor da ortodoxia cristã.

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aonde está o Espírito do Senhor aí há Liberdade. 

 

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