Mises, Razão e a Teoria Cristã da Verdade: Em Defesa da Economia



O que separa a Escola Austríaca de Economia, e especialmente a economia misesiana, é o seu compromisso com a ideia de que proposições econômicas não precisam - na verdade não conseguem - ser descobertas via observação empírica. Mais do que qualquer austríaco anterior a ele, Mises é proeminente em sua hipótese ousada e inflexível de que a economia é baseada em um método a priori. Da ciência da economia, Mises escreve (Ação Humana, página 59):

Suas afirmativas e proposições não derivam da experiência. São como a lógica e a matemática. Não estão sujeitas a verificação com base na experiência e nos fatos. São tanto lógicas como temporalmente anteriores a qualquer compreensão de fatos históricos. É um requisito necessário para qualquer percepção intelectual de eventos históricos.

E como Hans Hoppe diz (página 10) dos austríacos:

É esta avaliação da ciência econômica como uma ciência a priori, uma ciência cujas proposições podem receber uma rigorosa justificação lógica, que distingue os austríacos, ou mais precisamente, os misesianos, de todas as outras escolas de economia atuais. Todas as outras concebem a ciência econômica como uma ciência empírica, como uma ciência como a física, que desenvolve hipóteses que requerem testes empíricos constantes. E elas consideram dogmática e não científica a ideia de Mises de que os teoremas econômicos – como a lei da utilidade marginal, ou a lei dos rendimentos, ou a teoria da preferência temporal dos juros e a teoria austríaca dos ciclos econômicos – possam ser definitivamente provados, de maneira que pode ser claramente demonstrado que negar suas validades é completamente contraditório. 

Agora, devemos certamente elogiar Mises por estar quase sozinho em sua dedicação à natureza a priori da ciência econômica. Em uma época de cientismo, empirismo e rejeição de pressuposições a priori, Mises é um filósofo corajoso. Infelizmente, apesar de todo o elogio que ele faz à razão e à lógica em detrimento dos “estudos” empíricos e das investigações laboratoriais enganosas das hipóteses, Mises ainda, na minha opinião, não considerou suficientemente o papel e a natureza da razão. De fato, como o mundo econômico rejeita Mises como um velho rabugento que enfatiza muito a lógica, é minha opinião que ele deveria ter feito ainda melhor. Mises em Ação Humana, argumentando a partir da perspectiva de uma origem evolutiva do homem, escreve:


Teriam existido seres que, embora ainda não equipados com a faculdade da razão, estariam dotados com alguns elementos rudimentares de raciocínio. Não tinham ainda uma mente lógica, mas uma mente pré-lógica (ou de uma lógica bastante imperfeita). Suas funções lógicas desconexas e defeituosas evoluíram passo a passo do estado pré-lógico até o estado lógico. A razão, a inteligência e a lógica são, portanto, fenômenos históricos. Há uma história da lógica como existe a história das diferentes técnicas. Nada sugere que a lógica, como a conhecemos, seja o último estágio, o estágio final da evolução intelectual. A lógica humana é uma fase histórica entre a ausência de lógica pré-humana por um lado e a lógica sobre-humana por outro. A razão e a mente – os equipamentos mais eficientes de que são dotados os seres humanos na sua luta pela sobrevivência – fazem parte do contínuo fluxo de eventos zoológicos. Não são eternos nem imutáveis. São transitórios.

Infelizmente, isso por si só tem o potencial de causar dano a todo o sistema de Mises - todas as suas realizações correm o risco de serem minadas se de fato a razão e a mente, sobre as quais a estrutura misesiana é construída, forem transitórias. As leis econômicas de hoje podem ser superadas pela mente do futuro. A economia, então, não é para sempre.  Felizmente, a estrutura cristã, ou mais precisamente a Agostiniana/(Gordon) Clarkiana, faz melhor. Salvando a eternidade da razão e da mente, eles salvam o sistema misesiano. Se a economia misesiana verdadeiramente procede de maneira dedutiva de seus axiomas, então uma defesa robusta da razão dedutiva apoiará adequada e tremendamente a economia dedutiva, mesmo a partir de seu teórico histórico mais capaz. Gordon Clark, permanecendo diretamente na tradição Agostiniana de proposições como verdades absolutas e eternas, ensina o seguinte: 

A lei da contradição não deve ser tomada como um axioma anterior ou independente de Deus. A lei é o pensamento de Deus. Por essa razão também a lei da contradição não é subsequente a Deus. Se alguém disser que a lógica depende do pensamento de Deus, ela depende apenas no sentido de que ela é a característica do pensamento de Deus. Não é subsequente temporalmente, pois Deus é eterno e nunca houve um tempo em que Deus existisse sem pensar logicamente. Não se deve supor que a vontade de Deus existisse como uma substância inerte antes que ele quisesse pensar. Como não há primazia temporal, também não há primazia lógica ou analítica. Não só a lógica era o começo, mas a lógica era Deus. Se essa tradução incomum do prólogo de João ainda incomoda alguém, ele ainda pode permitir que Deus seja seu pensamento. Deus não é um substrato passivo ou potencial; ele é realidade ou atividade. Esta é a terminologia filosófica para expressar a ideia bíblica de que Deus é um Deus vivo. Portanto, a lógica deve ser considerada como a atividade do desejo de Deus.

Ainda mais tremendo, Clark escreve:

Ao contrário da filosofia antiga e medieval, os pragmatistas e instrumentalistas da contemporaneidade tentaram defender uma “verdade” que pode ser verdadeira hoje, mas foi falsa ontem e será falsa amanhã. Eles concordariam que a ciência é experimental; uma lei científica é “verdadeira: desde que funcione; mas o progresso garante sua substituição por outra "verdade". Críticas muito poderosas e, diria eu, completamente destrutivas ao instrumentalismo foram feitas, e seu tema comum parece ser que o instrumentalismo é autocontraditório. Se a verdade mudar, então o instrumentalismo popular que é aceito como verdadeiro hoje será falso amanhã. Como o tomismo era verdadeiro no século XIII, o instrumentalismo é verdadeiro no século XX e, dentro de cinquenta anos, o instrumentalismo, em virtude de sua própria epistemologia, será falso. Mas é de se duvidar se John Dewey apreciaria a morte iminente de seu experimentalismo. Os filósofos idealistas argumentaram plausivelmente que a verdade é também mental ou espiritual. Sem uma mente, a verdade não poderia existir. O objeto do conhecimento é uma proposição, uma ideia, um significado; é um pensamento. […] Com considerações como essas, Agostinho conseguiu explicar o processo de aprendizado e o de ensino. O professor na sala de aula não dá ideias aos seus alunos. As ideias ou verdades são descobertas pelo aluno em sua própria mente; e quando ele contempla a verdade interior, ele julga se o professor ensinou a verdade. Mas embora a verdade seja descoberta dentro da mente, não é uma produção do estudante. A verdade não é individual, mas universal; a verdade não começou quando nascemos, sempre existiu. É tudo isso mais do que a afirmação de que existe uma Mente eterna e imutável, uma Razão Suprema, um Deus pessoal e vivo? As verdades ou proposições que podem ser conhecidas são os pensamentos de Deus, o eterno pensamento de Deus. E na medida em que o homem sabe alguma coisa, ele está em contato com a mente de Deus.

Assim, temos, finalmente, uma ênfase na doutrina de que apenas proposições podem ser verdades, e apenas mentes podem conter essas proposições. Como Ronald Nash escreveu uma vez sobre a eternidade da verdade:

Seria contraditório negar a eternidade da verdade. Se o mundo nunca deixará de existir, é verdade que o mundo nunca deixará de existir. Se o mundo algum dia perecerá, então isso é verdade. Mas a própria verdade permanecerá, mesmo que toda coisa criada pereça. Mas suponha que alguém pergunte: "e se a própria verdade perecesse?". Então ainda seria verdade que a verdade teria perecido. Qualquer negação da eternidade da verdade acaba por ser uma afirmação da sua eternidade.

Já que as verdades são eternas, também devem ser as mentes.


As verdades econômicas, então, são eternas. E a ciência econômica é segura.





Sobre o Autor:

C. Jay Engel

Editor e criador de The Libertarian Reformed. Vivendo no norte da Califórnia com sua esposa, ele escreve sobre tudo, da política à teologia e da cultura à teoria econômica. Você pode enviar um e-mail para reformedlibertarian@gmail.com

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