Não Deixe a Esquerda (e a Direita) Roubar a "Justiça Social"


"Não há passatempo para o ignorante como destruir uma palavra útil" – Owen Barfield, World’s Apart, 1963

O significado das palavras pode ser destruído de inúmeras maneiras - uso excessivo, abuso, uso indevido, para citar alguns. De fato, palavras são como pessoas. Elas nascem de pais, casam-se de muitas maneiras diferentes, têm casos, se envolvem em uma variedade de amizades, têm filhos (ou não), etc. As palavras têm uma expectativa de vida semântica completa, na antiguidade originada da interação com o mundo físico de maneiras simples, emergindo em metáforas vívidas em seu auge, depois se tornando "mortas" na idade avançada e finalmente tornando-se arcaicas (verdadeiramente mortas). "Ele é um pão", por exemplo, costumava ser original e curioso, e depois se tornou uma metáfora comum, mas ainda assim pitoresca, que as pessoas gostavam de usar. Atualmente, é uma metáfora inoperante sobre a qual nem pensamos. No futuro, as pessoas terão que procurar o que significa "ele é um pão", já que será arcaico.

Às vezes as palavras são mortas prematuramente, antes de atingirem a idade adulta. Às vezes elas são natimortas e nunca sequer andam. Em outros casos, elas ficam por séculos. E o que é particularmente lamentável é quando as palavras se tornam propriedade e, durante toda a vida, perdem sua dignidade e significado.

Nos tempos contemporâneos, uma maravilhosa dupla de palavras: “justiça social”, ou, em alguns casos, um grupo de palavras, “guerreiro da justiça social” foi desnecessariamente morta, ou, pelo menos, monopolizada para um pequeno grupo. A combinação original de “social” e “justiça” pode ser particularmente rica, dada a ampla capacidade de cada termo, os conceitos antigos relacionados cada um (pense na justiça e na sociedade justa em Platão e Aristóteles), e as intermináveis relações entre eles. Como geralmente interpretada, uma “justiça” que é “social” é uma preocupação com o que é certo e justo para toda a sociedade e não simplesmente com o indivíduo. Naturalmente, então, a ideia se apegou àqueles com uma orientação mais coletivista. Não demorou muito no discurso ocidental e a "justiça social" tornou-se sinônimo de políticas econômicas extremamente específicas (e partidárias) como salário mínimo, saúde pública ou programas de assistência social para aqueles que atendem a certos critérios de renda.

Hoje, a “justiça social” ganhou uma tremenda carga conotativa, de tal forma que até mesmo falar sobre isso leva o risco de ser tachado como “esquerdista radical” (o que quer que isso signifique). O mesmo vale para “meio ambiente” e para uma dúzia de outras palavras politicamente carregadas. Dada a visão de Barfield na citação acima, não demora muito para percebermos por que tantas boas palavras estão sendo mortas nessa arena: o ignorante prospera na esfera política. Os assuntos políticos, por sua vez, tornam-se o campo de extermínio do significado linguístico.

O detalhe maravilhoso é que as palavras sempre podem mudar de significado. E isso depende inteiramente daqueles que as usam. É assim que as palavras originalmente adquiriram seus significados: sendo usadas pelas pessoas. Então, meu desafio é resgatar a “justiça social” e sim, até mesmo os “guerreiros da justiça social” - como os autênticos, como Jesus de Nazaré e Murray Rothbard.

A preocupação de Jesus era com indivíduos e grupos, com famílias e cidades, com povos e nações. Havia pouco na criação fora do escopo redentor de sua vida e missão. No entanto, uma dimensão óbvia de sua vida e obra foi dedicada à esfera da “justiça social”, que sua época girava em torno, bem, a mesma coisa com a qual ainda estamos lidando hoje: militarismo, impostos, os problemas massivos da dívida, um sistema religioso que ataca os vulneráveis com a ajuda do governo e vice-versa, etc.

No primeiro século do mundo greco-romano, o "templo-cidade" de Jerusalém era o ventre da besta. O templo é onde os registros da dívida foram armazenados - a maioria dos quais foram acumulados por desespero (ou seja, empréstimos porque não havia outra escolha), e é onde os líderes religiosos usaram sua autoridade para apoiar um sistema econômico e governamental de exploração.

“Após dez anos de governo insatisfatório na Judéia por seu filho Arquelau, os romanos colocaram a Judéia (junto com Samaria na Iduméia, mas não na Galiléia) sob o comando de um governador militar romano, que por sua vez governou a Judéia através da alta aristocracia sacerdotal. Estruturalmente, portanto, ainda havia pelo menos dois níveis de governantes com demandas por receitas do campesinato, os romanos procurando por seu tributo e o sumo sacerdócio de Jerusalém por dízimos e ofertas. A aristocracia sacerdotal era responsável por coletar o tributo e administrar suas próprias receitas. O governador romano nomeou e depôs o sumo sacerdote de uma ou outra dessas famílias, enquanto outros membros importantes das famílias ocuparam outros ofícios no “templo-cidade” ... Com os aristocratas sacerdotais e os herodianos ricos ansiosos por emprestar, a pobreza do povo levou a dívidas, que por sua vez levaram a perder o controle de suas terras para seus credores ricos. A terra na região montanhosa da Judéia se movia cada vez mais para o controle de famílias herodianas e sacerdotais” Horsley, Covenant Economics, 85.

A "igreja" do tempo de Jesus ficou comprometida. Os saduceus e até mesmo os fariseus, até certo ponto, eram um braço do Estado - todos usados para ceifar mais e mais da população em geral - que era pobre. O famoso Sermão do Monte, a virada das mesas em Jerusalém e a frase-chave sobre "dívida" (um termo econômico) na Oração do Senhor destinavam-se a resolver essa situação. Em resumo, Jesus era o verdadeiro guerreiro da justiça social, profeticamente combatendo um mal sistêmico e estrutural que tirava proveito dos vulneráveis.

Mais a frente, o economista do século 20, Murray Rothbard (que, aliás, tinha uma herança judaica), e nós testemunhamos a mesma coisa. O livro de Rothbard O Que o Governo Fez Com Nosso Dinheiro? é outro ato profético de revolta contra um mal sistêmico e estrutural que tira proveito dos vulneráveis. Rothbard ressalta que esse sistema econômico de exploração é a reserva fracionária monopolizada do sistema bancário central que força a moeda fiduciária. No caso dos EUA, o “Fed” [sistema de bancos centrais dos Estados Unidos] é propriedade privada, mas trabalha exclusivamente com o governo federal e, de fato, usa o governo para forçar todos a usar suas cédulas/moedas.

O que torna o sistema “socialmente injusto” é que a depreciação de uma moeda fiduciária causa inflação, de modo que o dinheiro de todos vale menos. Mesmo sem fazer nada, os pobres da rua agora têm que pagar $10 por uma cesta de legumes, em vez de $7. A maioria das pessoas pode se dar ao luxo de compensar essa diferença, mas os pobres não podem. O banco central tem como alvo os mais vulneráveis da sociedade e os mantém na pobreza. E, ao mesmo tempo, esse mecanismo simultaneamente beneficia os setores mais ricos do mundo. Toda nota impressa pelo banco central, assim como o comércio cotidiano no Templo do tempo de Jesus, simboliza vividamente a injustiça social massiva, sistemática e estrutural.

Existem inúmeros outros exemplos. A guerra às drogas. A maneira como soldados traumatizados são tratados. A forma como as corporações internacionais aprovam leis para colocá-las em vantagem sobre sua concorrência e forçam as pessoas a comprar seus produtos e serviços (por exemplo, Obamacare). O modo como as agências reguladoras, como a SEC [principal regulador do mercado acionário norte-americano], trabalham em favor de bancos corruptos há décadas. Suborno após suborno após suborno de lobistas.

Estas são as conversas que precisamos ter. E é impressionante a quantidade de pontos comuns que se encontra com os marxistas, os progressistas e até mesmo alguns setores do neoconservadorismo quando este é o ponto central da discussão. É verdade que há muita confusão econômica e imprecisão sobre a culpabilidade neste tópico. Mas é precisamente por isso que é tão importante se envolver: precisa-se desesperadamente de clareza. Tem que ficar claro como certas atividades, funções e fenômenos em nosso mundo constituem uma situação genuinamente injusta. Não é suficiente simplesmente mencionar as crescentes “desigualdades de renda”, “os ricos ficando mais ricos”, “baixos salários”, ou regurgitar outras banalidades vagas e inúteis. Pode-se falar em vez disso sobre:

  1. Quem é dono do governo (ou seja, o maior detentor de dívida, que é um banco central), e o que isso pode implicar e significar.

  2. Os subornos documentados de líderes do Congresso e seus conflitos de interesses.

  3. A preocupação contemporânea com excesso de poder no governo federal, e como isso poderia sugerir que o posto é o problema, não aquele que o ocupa.

  4. Os incentivos monetários para as fábricas de guerra colocarem as tropas em perigo, guerra após guerra, e o indescritível mal e imoralidade que isso sugere.

  5. Como o empreendimento dos bancos estatais enganou o público para pensar que a inflação é boa e que a deflação é ruim.

  6. O modo pelo qual os governos maltrataram (isto é, mataram) populações indígenas, e ainda são confiados para consertar as coisas através de mais poder de empoderamento.

Em suma, é hora de todos nós evitarmos jogar o jogo “estas são as palavras que não devem ser faladas”, e olhar como as massas ignorantes destroem palavras maravilhosas e, ao fazê-lo, destroem conceitos cruciais que falam diretamente para nossas vidas. Corretamente entendida, a justiça social é um aspecto central do cristianismo e do libertarianismo; não deixe os ignorantes dizerem o contrário.





Sobre o autor:


Dr. Jamin Andreas Hübner

(ThD Systematic Theology, University of South Africa; MS Economics, Southern New Hampshire University) é um acadêmico, músico e empresário da Dakota do Sul. Ele atuou como Professor Associado em ciências humanas e sociais, bem como Reitor Acadêmico em educação superior. Ele também atua no Conselho Editorial de Priscilla Papers e The Canadian-American Theological Review, no Conselho Executivo da Canadian-American Theological Association, e no Great-Plains Rocky Mountain Program Committee para a Society of Biblical Literature/American Academy of Religion. Sua pesquisa foi publicada em mais de uma dúzia de diferentes periódicos acadêmicos, com trabalhos populares publicados pela revista Christianity Today, God and Nature Magazine, the Foundation for Economic Education, Christians for Biblical Equality, the Andreas Center e outras organizações.

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