Os Três Hebreus e a Queda da Babilônia



“E assim é importante ver que há momentos em que uma lei feita pelo homem está em desarmonia com a lei moral do universo, há momentos em que a lei humana está em desarmonia com as leis eternas e divinas. E quando isso acontece, você tem a obrigação de romper com isso e fico feliz que, ao romper com isso, eu tenha uma boa companhia. Eu tenho Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Eu tenho Jesus e Sócrates. E eu tenho todos os primeiros cristãos que se recusaram a se curvar.”


– Dr. Martin Luther King Jr.


Pode-se argumentar com veemência que a Bíblia judaico-cristã contém algumas das primeiras histórias que colocam a moralidade divina contra o conceito do governo feito pelo homem. Isso é significativo porque raramente no mundo antigo a religião era separada do governo, e a exceção geralmente era o povo hebraico. Os impérios do Egito, Babilônia, Grécia, etc., todos tiveram fortes casamentos entre o sacerdócio e a classe dominante. Isso porque o governo humano ao longo da história é uma extensão da religião sacrificial, e é nesse contexto sociológico que temos histórias como a dos três jovens Sadraque, Mesaque e Abede-Nego do livro de Daniel no Antigo Testamento.


O pano de fundo dessa história é que o rei da Babilônia, Nabucodonosor, derrotou o reino israelita em 597 a.C. e levou seus habitantes em cativeiro. Três dos cativos eram Hananias, Misael e Azarias, jovens que eram "belos, bem instruídos e rápidos em compreender". Esses três homens chamaram a atenção de Nabucodonosor, e assim o poderoso rei babilônico fez com que se tornassem seus servos, visando ganhar com a inteligência e sabedoria dadas a eles por Deus. Os três jovens receberam então os nomes de "Sadraque", "Mesaque" e "Abede-Nego".


Embora os três cumprissem a maioria das leis do rei Nabucodonosor, havia uma área em que eles não se comprometeriam, e essa era a crença deles no único Deus verdadeiro de Israel. Para o leitor moderno, isso não parece ser um grande problema, especialmente quando o leitor se orgulha das leis seculares de seu tempo. Mas a crença no Deus de Israel não é simplesmente crença; é um modo de vida totalmente diferente que está claramente em desacordo com o modo de vida do mundo secular. 


Nabucodonosor, de repente, teve a ideia de construir uma gigantesca estátua de ouro de si

mesmo, e então decretou que todos os seus súditos se curvassem a ela ao som de alguns instrumentos musicais. Este é talvez um precursor do tipo de cerimônias nacionais que temos nos estados-nação hoje. A ideia de que um governante, ou uma estrutura de governo, se considera de algum modo divina não é incomum; é um rumo natural para ter poder, controle e monopólio sobre o uso da força. O homem frequentemente adora e se submete àquilo que ele teme, e que coisa melhor há a temer do que aquilo que pode acabar com você de uma só vez. Violência, como a comandada por Nabucodonosor, tem a tendência de desenvolver a filosofia e a linguagem da pessoa; não há liberdade real como a que é concedida por Deus.


E assim todos se curvaram à imagem de Nabucodonosor; todos, exceto Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. O fato de que foram os astrólogos do rei que informaram sobre os três jovens não deveria surpreender ninguém. “Há alguns judeus que nomeaste para administrar a província da Babilônia, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que não te dão ouvidos, ó rei”, disseram ao rei: “Não prestam culto aos teus deuses nem adoram a imagem de ouro que mandaste erguer”. A influência dos intelectuais é uma maneira inteligente de aprisionar as massas em um labirinto circular de pensamento de grupo bem planejado. A violência martela um certo tipo de filosofia que impede o pensamento livre e a afirmação da vida; ela produz um certo tipo de personalidade intelectual ou popular que produz uma filosofia que mantém e perpetua a máquina do sacrifício, onde homens, mulheres e crianças não-violentos são continuamente jogados no fogo para manter a santidade da lei.


Os três amigos judeus não queriam se tornar porta-vozes fraudulentos para a violência; eles não queriam se tornar ferramentas para a coerção. E não foi porque suas consciências foram influenciadas por algum tipo de iluminação mundana (tal coisa não existia mesmo em forma embrionária naquela época), mas sim porque Deus exigiu isso delas. 


O rei Nabucodonosor trouxe os três homens diante dele e perguntou se era verdade que eles não adorariam a estátua de ouro. Eles responderam a ele: “Ó Nabucodonosor, não precisamos defender-nos diante de ti. Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das tuas mãos, ó rei. Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer”.


Nabucodonosor ficou enfurecido. Ele fez com que a fornalha aquecesse "sete vezes mais quente que de costume" para que os três homens fossem jogados. O rei tinha a máxima confiança de que o fogo sacrificial da violência sustentaria a santidade de seu governo. Mal sabia ele que o Deus de Israel libertaria os três homens do fogo. Sadraque, Mesaque e Abede-Nego não confiavam na sua própria força, mas apenas na graça salvadora do Senhor para salvá-los. O fogo não conseguiu sequer tocá-los, embora tenha queimado e matado os servos do rei que haviam jogado os três homens na fornalha. É digno de nota que o fogo muitas vezes volta para aqueles que o alimentam, tal é a natureza da violência que é forjada pelos homens.


O rei louvou o Deus dos três jovens. Logo ele seria humilhado; andaria de quatro e viveria no deserto como um animal selvagem. Talvez isso seja uma indicação do que acontece quando os filhos de Deus se apegam à vontade de Deus de "misericórdia, não sacrifício". O amor não-violento e não-sacrificial de Deus pelo próximo é como uma epidemia que varre tudo ao seu alcance, até mesmo poderes e principados. Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, como Cristo, servem como modelos de como devemos nos conduzir diante da tirania. Eles servem como portadores de Cristo para nós, potenciais imitadores de Cristo de hoje, para resgatar um mundo cheio de ódio e acusação. Onde o mundo diz “sacrifique os outros”, Cristo diz que “se doem pelo seu próximo”. É esse amor auto-sacrificial que desarma todos, até mesmo reis e políticos, levando a máquina de encarceramento em massa e matança em massa a uma completa paralisação.


O profeta Daniel, amigo dos três jovens citados anteriormente, proclamaria que um grande Rei chegaria, definharia a besta que "despedaçava e devorava suas vítimas" e assumiria seu trono na Terra. Este rei tiraria o poder de todos os governantes do mundo; todos vão adorar e obedecer a ele. Agora sabemos quem é esse rei; ele é o nazareno que derrotou os principados e potestades em uma cruz no Calvário. A crucificação de Jesus foi uma continuação e conclusão da história dos três jovens, o último prego no caixão do sacrifício humano. Hoje, somos chamados a imitar este Jesus e continuar desconstruindo as variantes modernas do sacrifício humano, como o encarceramento de infratores não violentos, o envio de soldados para morrer em guerras, o assassinato de crianças em clínicas de aborto, a polarização das nações devido a ideólogos e identitários, a perseguição dos que falam a verdade e a violência que nos destrói individualmente.


Em um mundo assombrado pela crucificação não pode haver nada além de vitória para a paz, o amor e a misericórdia, pois o que Cristo, o salvador dos três jovens, desvendou continua a desvanecer-se, cair e queimar à face da história humana.





Sobre o Autor:

Surit Dasgupta

é um escritor e pintor de Mumbai, na Índia. Ele é um ávido estudante de filosofia, antropologia e teologia. Ele também é formado em artes pela All India Fine Arts Association.

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A Liberdade

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aonde está o Espírito do Senhor aí há Liberdade. 

 

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